ONU: Compare o discurso de Lula com o de Bolsonaro na Assembleia Geral | Brasil – Finanças Global On

ONU: Compare o discurso de Lula com o de Bolsonaro na Assembleia Geral | Brasil

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abriu a 78ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) com um discurso sobre desigualdade social e crise climática. O pronunciamento indica uma mudança de tom na diplomacia internacional brasileira, quando comparada com as participações anteriores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Tradicionalmente, o Brasil é o primeiro país a falar nas assembleias da ONU, seguido pelos Estados Unidos. Lula participou do evento internacional nos seus outros dois mandatos, entre 2003 e 2009, deixando de comparecer em 2010. Já Bolsonaro discursou em todos os anos do seu governo, entre 2019 e 2022.

Em seu primeiro pronunciamento na ONU, em 2019, Bolsonaro abordou sobre meio ambiente, assim como Lula, mas criticou a interferência internacional nas políticas ambientais adotadas pelo Brasil. O ex-presidente também optou por falar sobre o combate à corrupção e a segurança pública, centrando seu discurso no cenário interno do país.

Comparando os dois políticos, é possível observar com clareza as visões opostas de ambos em diferentes assuntos. Bolsonaro discursou sobre o “fim do socialismo” no Brasil e adotou um tom combativo, enquanto Lula culpou o “neoliberalismo” pelo avanço da extrema direita e o aumento da desigualdade social.

Em sua primeira fala à ONU, Bolsonaro iniciou o discurso apresentando um “novo Brasil, que ressurge depois de estar à beira do socialismo”. “Meu país esteve muito próximo do socialismo, o que nos colocou numa situação de corrupção generalizada, grave recessão econômica, altas taxas de criminalidade e de ataques ininterruptos aos valores familiares e religiosos que formam nossas tradições”, declarou o ex-presidente na ocasião.

Lula, por outro lado, prestou homenagens ao diplomata Sérgio Vieira de Mello, que foi funcionário da ONU por mais de 30 anos, e às vítimas dos desastres naturais em Marrocos, Líbia e no Rio Grande do Sul. O atual presidente brasileiro também relembrou a sua primeira participação na Assembleia da ONU e tentou se distanciar do tom adotado anteriormente pelo governo Bolsonaro.

“O Brasil está se reencontrando consigo mesmo, com nossa região, com o mundo e com o multilateralismo. Como não me canso de repetir, o Brasil está de volta. Resgatamos o universalismo da nossa política externa, marcada por diálogo respeitoso com todos”, disse Lula.

Em 2019, as queimadas na região amazônica chamavam a atenção da comunidade internacional, que cobrava uma postura mais eficiente por parte do governo brasileiro. Bolsonaro argumentou que seu governo estava comprometido com “a preservação do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável”, mas criticou a pressão de outros países sobre o assunto, alegando que eles desrespeitavam a soberania nacional.

“É uma falácia dizer que a Amazônia é patrimônio da humanidade e um equívoco, como atestam os cientistas, afirmar que a nossa floresta é o pulmão do mundo. Valendo-se dessas falácias, um ou outro país, em vez de ajudar, embarcou nas mentiras da mídia e se portou de forma desrespeitosa, com espírito colonialista”, alegou Bolsonaro.

Bolsonaro ainda responsabilizou comunidades indígenas e condições climáticas pelas queimadas. “Nesta época do ano, o clima seco e os ventos favorecem queimadas espontâneas e criminosas. Vale ressaltar que existem também queimadas praticadas por índios e populações locais, como parte de sua respectiva cultura e forma de sobrevivência”, disse o ex-presidente.

Lula, por outro lado, afirmou que a crise climática “bate às nossas portas, mata e impõe perdas e sofrimentos a nossos irmãos, sobretudo os mais pobres”. O atual presidente voltou a responsabilizar os países mais ricos pelos danos ambientais, ao passo em que o Sul Global seria o mais impactado pelas mudanças do clima, segundo o seu argumento.

“Os 10% mais ricos da população mundial são responsáveis por quase a metade de todo o carbono lançado na atmosfera. Nós, países em desenvolvimento, não queremos repetir esse modelo”, disse Lula. O petista aproveitou esse tema para destacar o papel do Brasil na vanguarda da transição energética e na construção de um modelo socialmente justo e ambientalmente sustentável.

Além disso, Lula comentou sobre a retomada de ações de fiscalização e combate aos crimes ambientais na Amazônia. “Sediamos, há um mês, a Cúpula de Belém, no coração da Amazônia, e lançamos nova agenda de colaboração entre os países que fazem parte daquele bioma. Somos 50 milhões de sul-americanos amazônidas, cujo futuro depende da ação decisiva e coordenada dos países que detêm soberania sobre os territórios da região”, disse Lula.

Bolsonaro também aproveitou o seu primeiro discurso na ONU para atacar o que chamou de “sistemas ideológicos de pensamento que buscam o poder absoluto”. Ele criticou a identidade de gênero, o “politicamente correto” e a “ideologia [que] invadiu a própria alma humana para dela expulsar Deus e a dignidade com que Ele nos revestiu”.

O ex-presidente destacou que a ONU foi criada para “promover a paz entre nações soberanas e o progresso social com liberdade” e que “não estamos aqui para apagar nacionalidades e soberanias em nome de um ‘interesse global’ abstrato. Esta não é a Organização do Interesse Global”.

Na contramão, Lula direcionou seus ataques ao neoliberalismo e o responsabilizou pelo aumento da desigualdade econômica e pela crise na democracia. “Em meio aos escombros [do neoliberalismo] surgem aventureiros de extrema direita que negam a política e vendem soluções tão fáceis quanto equivocadas. Muitos sucumbiram à tentação de substituir um neoliberalismo falido por um nacionalismo primitivo, conservador e autoritário”, disse Lula.

“Precisamos resgatar as melhores tradições humanistas que inspiraram a criação da ONU”, argumentou o atual presidente.

No campo da economia, Bolsonaro destacou a atuação do seu governo em prol do livre mercado, das concessões e das privatizações. “A economia [brasileira] está reagindo, ao romper os vícios e amarras de quase duas décadas de irresponsabilidade fiscal, aparelhamento do Estado e corrupção generalizada”, disse o ex-presidente criticando as administrações petistas anteriores.

Já Lula optou por focar no cenário internacional, alegando que o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial reproduzem as desigualdades ao redor do mundo. “No ano passado, o FMI disponibilizou US$160 bilhões em direitos especiais de saque para países europeus, e apenas US$ 34 bilhões para países africanos (…) Não corrigimos os excessos da desregulação dos mercados e da apologia do Estado mínimo”, disse Lula.

O atual presidente também aproveitou a oportunidade para destacar o papel do BRICS na cooperação entre países emergentes, “em prol de um comércio global mais justo num contexto de grave crise do multilateralismo”.

Uma manifestação contrária à intolerância religiosa foi usada como gancho por Bolsonaro para destacar as contribuições brasileiras em missões de paz e de ajuda humanitária, em países como Haiti, Líbano e República Democrática do Congo.

“Reafirmo nossa disposição de manter contribuição concreta às missões da ONU, inclusive no que diz respeito ao treinamento e à capacitação de tropas, área em que temos reconhecida experiência”, declarou Bolsonaro na época.

Lula também defendeu a promoção da “cultura da paz” e relembrou os conflitos em Burkina Faso, Gabão, Guiné-Conacri, Mali, Níger e Sudão, além das crises humanitárias no Haiti, no Iêmen e na Palestina. “A guerra da Ucrânia escancara nossa incapacidade coletiva de fazer prevalecer os propósitos e princípios da Carta da ONU”, disse o atual presidente.

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