ANÁLISE: Lula equilibra pratos entre florestas e petróleo na COP 28 enquanto Gustavo Petro diz o que se quer ouvir | COP28

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva começou o segundo dia da COP 28 em Dubai fazendo um agrado ao setor de petróleo e ao ministro de Minas e Energia Alexandre Silveira, e depois prestando homenagem emocionante à ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima Marina Silva. Lula fez o que sabe fazer como ninguém – política. Enquanto isso, o presidente da Colômbia Gustavo Petro mostrava – de novo — que está na disputa pela liderança verde da América do Sul.

Petro não acredita que a transição seja feita pelo setor privado, que buscará atividades apenas onde pode lucrar, mas pelos fundos públicos. “Estamos falando de trilhões de dólares, e para isso teremos que diminuir as dívidas dos países”, disse em seu discurso. O colombiano propõe obsessivamente que a crise climática seja financiada pela troca de dívidas externas por serviços ambientais.

Como Lula, Petro também defende uma nova arquitetura mundial com um “pacto entre países pobres, renda média, ricos e a China”, em suas palavras. Na Cúpula de Belém, em agosto, pediu o fim da exploração de petróleo na Amazônia.

Repete uma expressão que se ouve cada vez mais no governo brasileiro – a de que o sistema financeiro mundial tem que financiar um grande “Plano Marshall” de solução à crise climática.

Só que enquanto o presidente Lula confirmou em reunião de movimentos sociais que o Brasil vai participar da Opep+, um grupo ampliado de países que atuam como observadores associados à Organização dos Países Exportadores de Petróleo (o famoso cartel onde a Arábia Saudita dá as cartas), Petro assinava a adesão da Colômbia ao tratado de não proliferação de combustíveis fósseis. São dois movimentos talvez ainda tímidos, mas seguramente opostos.

Lula confirmou a informação que correu solta no governo brasileiro no primeiro dia da COP 28 – o vídeo em que o ministro Silveira dizia aos pares da Opep+ que Lula havia aprovado a entrada do Brasil no grupo. Lula não desautorizou Silveira ao falar em um evento com movimentos sociais, logo cedo, no sábado.

“Muita gente ficou assustada: ‘Nossa, o Brasil vai participar da Opep‘. O Brasil não vai participar da Opep, vai participar da Opep +”, disse Lula. “É que nem eu participar do G7. Eu participo do G7 desde que ganhei a Presidência da República. Aliás, o único presidente que participou em todas as reuniões do G7. É o G7+. Eu vou lá, escuto, só falo depois eu eles tomarem a decisão e venho embora. Não apito nada”, disse Lula.

Se não apita nada, para que entrar? “A Opep+ eu acho importante a gente participar, porque a gente precisa convencer os países que produzem petróleo que eles precisam se preparar para reduzirem os combustíveis fósseis”, justificou Lula. Ah, tá.

O Brasil podia ter ficado sem essa. Veio para a COP em Dubai com um projeto sólido de financiamento de florestas tropicais, com o ministro da Fazenda Fernando Haddad anunciando o Plano de Transição Ecológica, com o BNDES financiando reflorestamento onde a Amazônia foi destruída –mas decidiu entrar lá na Opep+ para ver o que rola.

Enquanto isso, Petro, presidente do segundo maior país amazônico e megadiverso como o Brasil, sentava-se em outra mesa, de alto nível, da COP 28. Ficou ao lado do presidente de Timor Leste, José Ramos-Horta, do primeiro-ministro de Tuvalu, Kausea Natano e do primeiro-ministro de Antígua e Barbuda, Gaston Browne. Além dos líderes de países que vêm sendo arrasados pela emergência climática, Petro se sentou com Tedros Adhanom, o diretor-geral da Organização Mundial de Saúde, e Inger Andersen, diretora-executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.

A Colômbia se torna o primeiro país latino-americano a se juntar formalmente ao bloco dos que se comprometem com a ideia de dar um fim ao uso dos combustíveis fósseis. É uma turma minúscula, com uma dezena de países pequenos, mas que se une a um movimento com 2 mil organizações da sociedade civil e mais de 3 mil cientistas, que apoia a ideia de não se abrir novas frentes de exploração.

As já existentes jazidas de combustíveis fósseis do mundo levarão o aquecimento do planeta a mais de 3ºC, se exploradas integralmente.

Uma das propostas do Brasil na COP é a “Missão 1,5ºC” ou seja, fazer todos os esforços para que não se ultrapasse esse objetivo climático. Entrar na Opep+ não orna bem com a meta. O marketing de Petro é bem mais afinado com salvar o planeta do colapso.

O dia do presidente Lula foi ruim também quando o presidente francês Emmanuel Macron disse à imprensa internacional que “é totalmente contra” o Acordo UE-Mercosul, que o considera “antiquado” e que os remendos propostos não são satisfatórios nem para o clima, nem para a biodiversidade. O Brasil entrega a presidência rotativa do Mercosul ao Paraguai no dia 7 de dezembro.

Lula, contudo, fez uma homenagem emocionante a Marina Silva, provavelmente a ministra de ambiente mais famosa do mundo. O presidente brasileiro deveria discursar na enorme plenária da COP, em evento sobre florestas. Subiu ao pódio de mãos dadas com Marina.

“Eu, embora seja o presidente do Brasil, não vou falar sobre florestas porque acho que esse encontro de hoje é sem precedentes na história das COPs. Precisamos de 28 anos para que as florestas viessem falar por si só. E eu não poderia utilizar a palavra sobre a floresta se tenho, no meu governo, uma pessoa da floresta. A Marina nasceu na floresta. Se alfabetizou aos 16 anos”. Então se emocionou. Tomou fôlego, abraçou a ministra e disse “acho que é justo que, para falar da floresta, ao invés de falar o presidente que é de um Estado que não é da floresta, a gente tenha que ouvir ela, que é a responsável pelo sucesso da política de preservação ambiental que estamos fazendo”. E cedeu a palavra a Marina, sob aplausos.

A jornalista viajou à COP 28 a convite do Instituto Clima e Sociedade (iCS)

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante a primeira Sessão do Segmento de Alto Nível para Chefes de Estado e de Governo com presidente da Colombia Gustavo Petro — Foto: Foto: Ricardo Stuckert / PR
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante a primeira Sessão do Segmento de Alto Nível para Chefes de Estado e de Governo com presidente da Colombia Gustavo Petro — Foto: Foto: Ricardo Stuckert / PR

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