BNDES lança na COP 28 o primeiro passo do maior projeto de restauração da Amazônia | COP28

O BNDES lançou sábado na COP 28, em Dubai, o projeto Arco da Restauração da Amazônia. A iniciativa pretende financiar a restauração de 24 milhões de hectares da floresta amazônica brasileira até 2050. O custo estimado é de US$ 40 milhões.

A etapa inicial prevê restaurar 6

BNDES sede prédio fachada — Foto: Leo Pinheiro/Valor
BNDES sede prédio fachada — Foto: Leo Pinheiro/Valor

milhões de hectares até 2030 (custo estimado de US$ 10 milhões ou R$ 51 bilhões) e 18 milhões de hectares de 2031 a 2050 (mais US$ 30 milhões ou R$ 153 bilhões) de 2031 a 2050.

O BNDES dará o primeiro passo com investimentos de R$ 1 bilhão, sendo R$ 450 milhões do Fundo Amazônia e R$ 550 milhões do Fundo Clima.

“Vamos precisar captar recursos no mercado internacional, bônus verdes, fundos soberanos, e outros instrumentos para esse programa, mas vamos começar com os recursos que temos”, disse Aloizio Mercadante, presidente do BNDES, no evento de lançamento da iniciativa.

O banco lançará o edital Restaura Amazônia com o objetivo de conjugar recursos de países, empresas e governos para a restauração da maior floresta tropical do mundo.

A estimativa é de retirar 1,65 bilhão de toneladas de carbono, com o restauro de 6 milhões de hectares até 2030. “É um impacto gigantesco”, disse Mercadante.

O esforço será iniciado em 4,5 milhões de hectares de unidades de conservação, terras quilombolas, terras indígenas ou áreas públicas não designadas. “Temos que começar por áreas do Estado e que estão degradadas”, disse. “Depois estimular florestas produtivas, com produção de açaí, pupunha, castanha, cupuaçu e madeira de lei em assentamentos e na agricultura familiar”.

Os R$ 450 milhões iniciais do Fundo Amazônia são recursos não reembolsáveis dirigidos às comunidades quilombolas, indígenas e tradicionais para que tenham atividades de geração de renda restaurando a floresta.

O segundo passo são recursos do Fundo Clima, com taxas de 1% ao ano, para atrair o setor privado.

Na declaração de florestas da Cúpula de Belém, em agosto, se mencionou quatro vezes que a Amazônia está na beira de um ponto de não retorno, recordou o climatologista Carlos Nobre.

“Esse projeto é uma iniciativa importante para combater a emergência climática e a emergência do desmatamento, o que significa que a Amazônia pode em poucas décadas entrar em uma trajetória sem volta”, seguiu Nobre.

“Uma trajetória de se tornar um ecossistema de dossel aberto e super degradado, perdendo uma quantidade gigantesca, mais de 250 bilhões de toneladas de carbono, com riscos para a biodiversidade, riscos de gerar novas epidemias e pandemias, perda do serviço ecossistêmico. Tudo isso pode acontecer se a Amazônia cruzar o ponto de não retorno”, explicou.

“Esse governo colocou o pé no chão e escutou a ciência”, disse Nobre ao Valor. “Eu particularmente tenho falado há tanto tempo do ponto de não-retorno. Estamos na beira do precipício e finalmente agora o governo assume políticas de combate à emergência de perder a floresta amazônica”.

“Temos muito pouco tempo”, reconheceu Mercadante. “Estamos lançando um grande projeto de restauração da floresta amazônica”, disse. “Precisamos de uma grande mobilização internacional de recursos para fazer esse cinturão de proteção de florestas da Amazônia, do Congo e da Indonésia”.

“É algo ambicioso: restaurar 50 milhões de hectares de plantio de florestas no mundo até 2050, sendo 24 milhões na Amazônia”, prosseguiu Mercadante.

“Estamos propondo blindar a Amazônia especialmente onde está sendo mais atacada, que é o arco do desmatamento”.

“Queremos emprego e renda associado ao restauro, para gerar alternativas às pessoas”, continuou Mercadante.

Nobre explicou a urgência. “A Amazônia está muito próxima do ponto de não retorno. Todo o Sul da Amazônia, do Atlântico até a Bolívia, 2,3 milhões de km2, toda essa floresta está com quatro a cinco semanas de estação seca mais longa. Essa é a realidade”.

“No Sudeste da Amazônia, a floresta já virou fonte de carbono”, seguiu Nobre, referindo-se ao estudo da pesquisadora do INPE Luciana Gatti. “Não vamos nos esquecer: as florestas globais removem 1/3 de todo o CO2 que a gente joga na atmosfera”, seguiu o climatologista.

“Se o aquecimento global passar de 2°C ou 2,5°C e o desmatamento atingir 20% a 25% da floresta, não tem mais volta”, continuou Nobre.

“Se isso acontecer, a floresta jogará mais de 250 bilhões de toneladas de carbono na atmosfera. É um enorme risco de pandemias, os rios voadores vão diminuir, vai prejudicar muito o sistema de chuvas no Cerrado, nos Andes. Estamos na véspera disso acontecer”, seguiu.

Depois deu os passos da solução. “Em primeiro lugar, temos que zerar o desmatamento, a degradação e o fogo na Amazônia antes de 2030. Isso é mandatório”, explicou. “Mas se fizermos só isso não se garante que a Amazônia não chegue ao ponto de não retorno. Por isso temos que fazer o maior projeto de restauração florestal do mundo”, continuou o cientista.

“Estou certo que muitos outros fundos do mundo inteiro vão ajudar a dar uma escala maior que os 26 milhões de hectares que o projeto do BNDES irá financiar”, seguiu.

A jornalista viajou à COP 28 a convite do Instituto Clima e Sociedade (iCS).

Deixe um comentário

x