Brasileiro confia mais em empresas do que nas inovações, mostra estudo | Empresas

Empresas de tecnologia são confiáveis para 79% dos brasileiros, mas o índice de confiança diminui para 53% quando se trata de inovações como a inteligência artificial, revela a pesquisa Edelman Trust Barometer 2024.

O distanciamento entre a confiança nas corporações e no que elas produzem também é observado nos setores de saúde e consumo. Enquanto 70% dos brasileiros disseram confiar em empresas de saúde, o percentual é menor (56%) entre os que confiam em medicina genética.

No setor de alimentos e bebidas, 75% confiam nas empresas, mas apenas 31% disseram confiar em alimentos geneticamente modificados.

O distanciamento entre a confiança nas empresas e nas inovações reflete a proximidade do brasileiro com as marcas, mas a insegurança quanto aos impactos das novidades.

“Quando notamos uma distorção entre as empresas e as inovações existe uma relação mais consolidada de confiança com as marcas, mas há uma diferença grande entre o setor e a inovação por ser algo que a sociedade não entendeu se pode ser benéfico, ou não”, afirma Ana Julião, gerente geral da agência de comunicação Edelman no Brasil, ao Valor.

No setor de energia, o resultado é o oposto. Os brasileiros confiam mais nas tecnologias do que nas empresas — 78% confiam nas inovações ligadas à energia limpa (biocombustíveis, hidrogênio líquido, energia eólica e solar) e 69% confiam nas empresas.

A 24ª edição da pesquisa realizada pela agência de comunicação Edelman entrevistou mais de 32 mil pessoas on-line, em 28 países, em novembro de 2023. No Brasil, a amostra é baseada em 1.150 entrevistas. A versão global da pesquisa foi lançada em meados de janeiro durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. E nesta quarta-feira a pesquisa sobre o Brasil está sendo divulgada.

Na amostra global do estudo, o setor de tecnologia têm 75% de confiança dos pesquisados, empatado com educação (75%). Depois vêm os setores de saúde (73%), alimentos e bebidas (72%).

O segmento das redes sociais mostram um índice de confiança bem menor, de 49%.

Os brasileiros colocam as empresas em primeiro lugar, com 66% de confiança, entre as instituições mais confiáveis para liderar inovações de forma segura, acessível e benéfica para a sociedade. Por aqui, a confiança nas empresas aumentou em dois pontos percentuais em relação ao estudo de 2023 (apurado em 2022) e está acima da média global de 63%.

Para 56% dos brasileiros, os reguladores governamentais não entendem adequadamente sobre as inovações para regulá-las de maneira efetiva. A maioria deposita um alto índice de confiança no papel de cientistas (82%), acadêmicos (75%) e especialistas técnicos (70%) à frente da implementação de inovações no país. “Os cientistas passaram a assumir um lugar de destaque por conta do auge da pandemia da covid-19”, observa Julião.

A busca on-line é o meio mais usado pelos brasileiros (69%) que procuram informações sobre novas tecnologias e inovações, seguida por redes sociais (53%), mídia nacional (51%) e mídia local (42%), informa o estudo. Por último, 38% buscam informações junto a amigos e familiares.

O índice de confiança nas empresas também se aplica a seus executivos-chefes. Entre os brasileiros, 68% esperam que estes executivos gerenciem as mudanças que estão ocorrendo na sociedade, além dos negócios.

Ainda entre os funcionários de uma empresa, 88% dos brasileiros consideram importante que seus executivos-chefes sejam transparentes sobre questões como habilidades profissionais para o futuro, 86% sobre uso ético das tecnologias e 82% sobre o impacto da automação nos empregos.

A gerente geral da Edelman no Brasil nota que a confiança nos executivos-chefes reflete a busca do público por uma relação mais próxima com as marcas, nas redes sociais. “As pessoas vão buscar o posicionamento dos executivos e vejo os executivos-chefes brasileiros começarem a se posicionar em relação a questões mais sensíveis, o que já é mais comum nos Estados Unidos”, observa Julião. ‘No Brasil, onde as empresas dependem mais do poder público, ainda evitam embates”.

Terreno para ‘fake news’

Quando se trata de buscar a verdade sobre as inovações e novas tecnologias, no entanto, os brasileiros confiam mais em seus pares e pessoas próximas (80%) do que em cientistas e em especialistas técnicos.

A confiança nos pares e em pessoas próximas é um comportamento natural do ser humano, nota Julião, mas que acaba se tornando propício à proliferação de notícias falsas (“fake news”). “Como não entendo o que está acontecendo e não sei em quem confiar, por motivos políticos ou outros, isso vai provocando um reducionismo propício à formação de bolhas [de informação]”, diz a executiva.

Informações falsas ou exageradas vindas de autoridades governamentais preocupam 72% dos pesquisados, vindas de líderes empresariais (64% se preocupam), e de jornalistas e repórteres (68%).

Resistência a inovações

A pesquisa global também relaciona a posição política dos entrevistados à resistência às inovações citadas no estudo — inteligência artificial, energia limpa, medicina genética e alimentos geneticamente modificados.

Nos Estados Unidos, 53% dos pesquisados com inclinação política à direita rejeitam as inovações, ante 12% dos entrevistados com inclinação política à esquerda.

No Brasil, a diferença é menor com 22% de rejeição às inovações entre pesquisados com posicionamento político de direita e 16%, entre os entrevistados com inclinação política de esquerda.

Os pesquisados também se preocupam com a influência do governo sobre a ciência. Para 57% dos brasileiros, a ciência se tornou politizada no país e 61% afirmam que o governo e as organizações que financiam pesquisas têm muita influência sobre como a ciência é feita.

De forma geral, o desemprego é o maior motivo de preocupação para 91% dos brasileiros, ante 90% em 2023, seguido pela inflação, para 76% dos pesquisados na edição 2024 do estudo, ante 71% em 2023. Globalmente, o desemprego é uma preocupação de 88% dos pesquisados e a inflação, de 73%, índices estáveis em relação à pesquisa anterior.

Em relação aos medos relativos à sociedade, os brasileiros se preocupam com mudanças climáticas (82%), guerra nuclear (78%), hackers (74%) e guerra de informação (63%).

Empresas de tecnologia são confiáveis para 79% dos brasileiros, mas o índice de confiança diminui para 53% quando se trata de inovações como a inteligência artificial — Foto: Noah Berger/AP
Empresas de tecnologia são confiáveis para 79% dos brasileiros, mas o índice de confiança diminui para 53% quando se trata de inovações como a inteligência artificial — Foto: Noah Berger/AP

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