Galípolo diz sentir, em conversas com agentes econômicos, pressão para acelerar cortes da Selic | Finanças

O diretor de Política Monetária do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, afirmou há pouco que retirar o plural de “próximas reuniões” da comunicação do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre o ritmo de corte da Selic de 0,50 ponto por encontro seria precificado de formas diferentes pelo mercado em outros momentos.

Segundo ele, “no primeiro momento” o mercado leria como aceleração do ritmo e, depois, com a deterioração do cenário externo, poderia entender o contrário, de que ia reduzir o ritmo.

“Agora, no cenário mais benigno, venho sentindo nas interlocuções [com agentes econômicos] uma pressão do sentimento de que há espaço para eventualmente acelerar”, disse em evento promovido pelo J.P. Morgan em São Paulo.

Ele afirmou que o colegiado tenta não “se emocionar muito” com dados de alta frequência.

O diretor reafirmou que o colegiado está confortável com o ritmo de cortes da Selic de 0,50 ponto percentual e que as autoridades monetárias em diversos países estão comunicando que estão mais “data dependentes”. “Se os dados mudam, as minhas convicções também mudam. Todo mundo tem que estar aberto a esse tipo de mudança”, disse.

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Para ele, o Copom tenta “se beneficiar” do estágio do ciclo “que permite ver como isso se desenrola”. “Sempre há colocação de que a gente foi na comunicação do Copom colocando a barra alta para uma mudança de ‘pace’, onde isso foi quase se transformando em um evento de cauda, isso conduziu a discussão para a taxa terminal do que para um ‘pace’. Mesmo com toda a volatilidade, quando olho para o Focus, os ajustes não foram de muita magnitude para 2024”, pontuou.

Galípolo reforçou que a autoridade monetária não tem uma meta de diferencial de juros com os Estados Unidos, de desemprego ou de câmbio, mas persegue um objetivo para a inflação.

“Autoridades internacionais dizem que o Brasil é um dos que mais se preocupam com as expectativas de inflação. Esse é o ponto de maior esforço do BC, para que tenha reancoragem total e não só parcial das expectativas”, disse.

Segundo ele, se a inflação corrente continuar “apresentando bons resultados”, talvez seja o principal canal de transmissão para as expectativas. “A ideia de que a gente prescreve esse remédio [dose de juros] por um período mais longo porque é melhor que dar uma overdose tem sido recorrente. A ideia é que o BC está olhando para um horizonte mais longo”, afirmou.

O diretor pontuou que o mercado de trabalho está “surpreendentemente resiliente”. “Isso ajuda porque dá a ideia de que você está receitando um remédio sem efeitos colaterais relevantes para o paciente”, disse.

Sobre o fiscal, Galípolo disse que “existem limites” do quanto o BC pode “endereçar nesse tema”. Ele voltou a dizer que o mercado já precifica um déficit primário maior que zero em 2024. “É uma questão de como se atinge esse déficit, é uma percepção de comprometimento com o equilíbrio fiscal. Tem também um ceticismo sobre uma meta de 3% [de inflação] considerando o histórico do país [na desancoragem]. Isso não é um tema do BC; estamos comprometidos com a persecução da meta”, enfatizou.

“Na equipe econômica existe convicção de que o Brasil ficou com as políticas monetária e fiscal trabalhando em direções opostas. Isso é pior que um jogo de soma zero”, reiterou.

Em relação aos precatórios, ele disse que “não é simples” estimar os impactos. “Já ouvi argumentos de todos os tipos”, contou. “É difícil estimar o saldo final, considerando que a expectativa do 0,8% [de déficit] já estava lá antes da discussão da meta [fiscal]”, lembrou. “Entre um Copom e outro as coisas mudam bastante; estamos ganhando tempo para ver como as coisas vão se desdobrar”, acrescentou.

Sobre o cartão de crédito rotativo, Galípolo frisou que “é difícil chegar a uma solução ótima em que todos serão beneficiados”. “Alterações não são simples de serem feitas”, afirmou. Para ele, se os setores não chegarem ao consenso “a resposta está no legislativo”.

 — Foto: Pedro França/Pedro França/Agência Senado
— Foto: Pedro França/Pedro França/Agência Senado

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