Dólar fecha agosto em alta de 4,68%, no maior avanço mensal desde junho de 2022 | Finanças

O dólar à vista encerrou a sessão desta quinta-feira exibindo apreciação consistente frente ao real, em meio à preocupação dos agentes financeiros com as contas públicas brasileiras. Diante disso, a moeda americana encerrou a sessão em alta de 1,67% no mercado spot, cotada a R$ 4,9500, depois de ter tocado a mínima de R$ 4,8639 e atingido a máxima de R$ 4,9595. No acumulado do mês, o dólar comercial avançou 4,68%, na maior alta mensal desde junho de 2022. No ano, no entanto, a moeda americana tem queda de 6,21%.

O pregão de hoje foi marcado por uma confluência de fatores que serviram como gatilhos para a apreciação do dólar. Por aqui, além do já mencionado tema fiscal, houve questões técnicas, como a formação da Ptax de fim de mês, que costuma deixar a volatilidade do câmbio mais alta. Além disso, a grande exposição de investidores locais em reais, apostando na queda do dólar, em dia em que o humor com as contas públicas azedou, pode ter deixado o câmbio ainda mais vulnerável.

No exterior, por sua vez, o dólar voltou a exibir robustez frente a maioria das moedas, em mais uma sessão com dados fortes da economia americana. Mas não foi só isso. Antes mesmo de o mercado dos Estados Unidos começar a operar, a sinalização de que o Banco Central Europeu (BCE) pode estar menos preocupado com a inflação, e mais atento à atividade econômica fez com que a moeda americana se fortalecesse contra o euro. No fim da sessão, das 33 moedas mais líquidas observadas pelo Valor, a maioria recuava frente ao dólar, e o real apresentava o pior desempenho. Já o índice DXY exibia apreciação de 0,42%, a 103,591 pontos.

No caso da ponta fiscal, a sessão começou com mais um desconforto. Operadores pontuam que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sancionou a lei complementar que cria o novo arcabouço, mas com vetos sobre a proibição de exclusão de gastos. Na leitura da equipe de política da XP, em um cenário de dificuldades para encontrar as receitas extras necessárias para zerar o déficit em 2024, a partir do veto, ficará menos obstruído o caminho para que o governo use a brecha para tirar investimentos como os do PAC da meta.

Esses vetos pesaram em um momento em que os agentes financeiros estão mais sensíveis ao tema fiscal, seja porque hoje foi apresentado o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2024, seja porque o déficit do setor público consolidado de julho decepcionou.

“O mercado de câmbio costuma reagir a dados de inflação, a decisão de juros. É difícil vermos uma reação a indicadores do setor fiscal, mas o momento está trazendo luz a este tema”, aponta Cristiane Quartaroli, economista da Ourinvest. “Agora está em destaque por conta da aprovação da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e por conta da sanção do novo arcabouço”, diz.

Na avaliação de Roberto Motta, analista macro da Genial Investimentos, houve uma mudança no viés dos investidores nos últimos dias, após dados ruins na seara fiscal. “Antes o foco era a inflação porque queríamos saber qual seria o passo do Banco Central. Como essa discussão já mostra que será [um corte na Selic no ritmo] de 0,50 ponto percentual, o tema quente se tornou o fiscal, após esses números muito ruins”, diz.

“O reconhecimento do mercado que o cenário fiscal é bem pior do que se imaginava na véspera da definição da Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA), ao lado da formação da Ptax e uma posição muito grande de investidor local apostando na queda do dólar criaram um coquetel que deixou nossa moeda muito exposta”, enfatiza Motta.

A posição vendida em dólar futuro, dólar mini, swap e cupom cambial (DDI) do investidor institucional brasileiro está em torno de US$ 7,86 bilhões, segundo dados da B3 do fechamento de ontem. Na última sessão, essa posição sofreu ligeira contração de US$ 75,3 milhões. “É provável que amanhã os números mostrem uma redução ainda maior nesses números”, diz Motta, da Genial.

Em relação ao cenário externo, Motta lembra também que pode ter pesado para o real o anúncio do BC mexicano (Banxico) de que vai reduzir gradualmente seu programa que dá liquidez ao mercado de câmbio. “Ou seja, vai comprar dólar e enxugar um pouco.”

Já Quartaroli, da Ourinvest, menciona os números fortes da economia americana como outro gatilho para a apreciação forte do dólar. “O PMI de Chicago veio mais forte do que o esperado, dando espaço para a preocupação sobre como o Federal Reserve (Fed) vai seguir seu ciclo de juros, provavelmente mantendo as taxas elevadas por mais tempo. Isso consequentemente leva fluxos para os Estados Unidos”, afirma.

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