Juros nos EUA devem ir abaixo do precificado pelo mercado, diz Leichsenring, da Verde | Finanças

O mercado financeiro precifica uma taxa de juros nos Estados Unidos com dificuldade de ir muito abaixo de 3,8%, após o início de cortes neste ano, “comprando a tese” de que a inflação “vai permanecer alta para sempre”, brinca Daniel Leichsenring, economista-chefe da Verde Asset. “Ok, tem elementos para acreditar nessa tese, mas eu discordo dela veementemente”, afirmou o economista durante evento do AndBank Brasil nesta quarta-feira (3) em São Paulo.

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“Acho que vamos embarcar em um ciclo monetário de corte e os EUA vão acabar reduzindo os juros talvez um pouco abaixo de 3% ao longo do tempo”, disse. “O 3,8% [de taxa de juros nos EUA indicado na curva de mercado] já é uma boa notícia, mas acho que vai acontecer muito mais do que está precificado”, afirma.

Leichsenring diz já ver sinais de que a dinâmica no mercado de trabalho americano está começando a ficar muito menos apertada do que no período anterior à pandemia.

Ele cita dados sobre a taxa de pessoas pedindo demissão, que voltou a desacelerar e está perto dos patamares de 2014-2015, e também sobre a taxa de contratação, que caiu “para níveis bem mais baixos”, afirma.

Esses são, segundo Leichsenring, os melhores indicadores para prever o comportamento dos salários nos EUA ao longo do tempo. “Com esses dois indicadores, estamos, provavelmente, em uma região em que os salários vão começar a crescer 0,5%, 0,6% por trimestre”, diz, observando que essas não são taxas, historicamente, associadas a uma inflação excepcionalmente elevada.

“Não acredito na teoria de que estamos em uma espiral de salários, que elevam custos e geram repasses”, afirma.

Outras métricas de emprego e atividade também mostram uma situação menos apertada do que até bem pouco tempo atrás, aponta Leichsenring.

Indicadores antecedentes do mercado de trabalho, como uma pesquisa sobre a pretensão dos empresários de contratar ou demitir nos próximos três meses e também sobre a quantidade de pessoas em “desemprego permanente” indicam uma taxa de desocupação ao redor de 5,5%, segundo Leichsenring, acima dos atuais 3,9%, nota.

Leichsenring olha ainda para dados sobre o percentual de Estados americanos com aumento do desemprego. “Em nenhum momento da história dos EUA a gente viu esse tipo de taxa de Estados perdendo empregos sem que o país tenha entrado em recessão”, afirma.

O economista pondera que isso não significa que os EUA enfrentarão uma “mega recessão”. Questões migratórias, por exemplo, têm ajudado a aumentar a oferta de trabalhadores no país, contribuindo para desapertar o mercado de trabalho.

“Ainda vai gerar vagas, mas o desemprego começa a subir aos poucos, o que é condizente com salários crescendo pouco e uma inflação baixa”, afirma.

Além disso, com a taxa de juros alta há algum tempo, a tendência é as pessoas irem gastando a poupança que acumularam com as transferências governamentais recentes, até o ponto em que, para consumir, elas precisam cada vez mais do crédito, explica Leichsenring. Isso já é observado, segundo ele, no percentual da renda familiar gasto com juros, por exemplo. “Deu um salto dramático”, afirma.

O nível indica, segundo Leichsenring, que o consumidor americano está chegando a um certo limite de sua capacidade de consumir. Ainda assim, observa, a renda tem crescido recorrentemente abaixo do consumo.

“Significa que é muito mais provável ter alguma desaceleração do consumo do que uma aceleração”, afirma.

A atividade americana, diz Leichsenring, deve ter uma desaceleração mais pronunciada do que se observou até agora. “A economia está, de fato, mais resiliente do que o imaginado, mas acho que esses dias estão para trás”, afirma.

A trajetória de desaceleração da inflação e corte de juros vale para muitos países ao redor do globo, observa Leichsenring. De modo geral, ele diz que a inflação vai acabar caindo mais do que as pessoas imaginam, enquanto todos os países também vão acabar cortando mais os juros do que se projeta hoje.

Isso é importante, segundo Leichsenring, porque, na medida em que todos os países do mundo avancem para cortes de juros, especialmente no segundo semestre deste ano, o mundo pode voltar a crescer de forma mais sincronizada.

“Hoje, o mundo está em dissincronia extrema de crescimento, com prevalência americana brutal”, diz Leichsenring, observando que os EUA crescem cerca de 2,5 pontos percentuais acima dos demais países desenvolvidos, por exemplo. Em relação aos emergentes, o desempenho dos EUA é cerca de 1 ponto percentual superior.

Períodos em que o mundo cresceu de forma mais sincronizada tenderam a ser melhores para a economia brasileira, como entre 2003 e 2008, nos primeiros governos de Lula, e depois de 2016 até pouco antes da pandemia, observa Leichsenring.

“Em momentos em que o mundo tem muita disparidade de crescimento também há muita disparidade de retorno esperado em investimentos em diversos países”, diz.

Daniel Leichsenring, economista-chefe da Verde Asset — Foto: Ana Paula Paiva/Valor
Daniel Leichsenring, economista-chefe da Verde Asset — Foto: Ana Paula Paiva/Valor

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