Juros futuros fecham em alta firme com receios fiscais no radar | Finanças

Os juros futuros fecharam o pregão desta quinta-feira (31) em alta firme ao longo de toda a estrutura a termo da curva, em mais um dia marcado pelo aumento dos temores relacionados à piora das contas públicas no Brasil. Após um déficit primário maior que o esperado na véspera, as incertezas acerca do Orçamento do ano que vem e os vetos da Presidência da República a trechos da lei do arcabouço fiscal acabaram ampliando o desconforto dos participantes do mercado, que viram a medida como uma possibilidade de o governo flexibilizar a nova regra.

No encerramento da sessão, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2024 passou de 12,365% do ajuste anterior para 12,395%; a do DI para janeiro de 2025 subiu de 10,435% para 10,545%; a do DI para janeiro de 2026 avançou de 9,98% para 10,165%; e a do DI para janeiro de 2027 saltou de 10,135% para 10,38%.

 — Foto: Karolina Grabowska/Pexels
— Foto: Karolina Grabowska/Pexels

O estresse observado nos ativos brasileiros foi provocado, majoritariamente, por fatores domésticos. No exterior, os juros dos Treasuries caíram, com o rendimento da T-note recuando de 4,876% para 4,871%, e a taxa da T-note de 10 anos passando de 4,113% para 4,109%.

Desde a tarde de ontem, participantes do mercado passaram a embutir prêmios de risco nas taxas de juros à medida que cresceu a percepção de uma piora nas condições fiscais do país. O movimento, disparado a partir da divulgação do resultado do governo central pelo Tesouro Nacional, impulsionou os juros longos e acentuou a inclinação da curva de juros.

Segundo o estrategista-chefe para América Latina da Mizuho, Luciano Rostagno, o comportamento do investidor estrangeiro em relação ao Brasil pode estar sofrendo uma mudança.

“A parte mais longa da curva está subindo mais e é justamente onde o investidor estrangeiro aplica mais no país. O estrangeiro vinha se mostrando menos preocupado e não olhando tanto para o detalhe na parte fiscal. A combinação deste resultado primário pior que o esperado, junto com a fala da [ministra do Planejamento e Orçamento, Simone] Tebet, indicando que o governo precisa levantar R$ 168 bilhões de receitas adicionais, parece trazer um choque de realidade para o estrangeiro, que se dá conta que o fiscal é pior do que se esperava anteriormente”, afirma.

O sócio e gestor de renda fixa da Oby Capital, Camilo Cavalcanti, alerta que nos últimos dias as preocupações fiscais vêm crescendo no mundo inteiro e têm sido tema de discussões importantes, até mesmo entre os investidores mais renomados dos EUA. “O mundo inteiro está olhando mais para o fiscal de uma ou duas semanas para cá e isso tem tomado o noticiário. Nossa situação já não era simples, e calhou com o limite do prazo para enviar uma LDO, com um número que acabou assustando um pouco o mercado”, afirma.

Segundo Cavalcanti, ainda que o mercado já não esperasse o cumprimento da meta fiscal de 2024, também não estava no radar uma piora da discussão no curto prazo. “O risco está tomando um pouco de forma com essa discussão fiscal. Ainda não tem nenhum problema grave, mas é preciso acompanhar que direção a discussão vai tomar”, completa o gestor da Oby.

Rostagno, por sua vez, aponta que, com a parte curta da curva mais bem ancorada pelo plano de voo delimitado pelo Banco Central, a parte longa tende a exibir maior volatilidade daqui em diante. “O novo arcabouço ajudou a reduzir o risco de cauda, mas a tendência é a dívida pública retomar uma trajetória de alta ao longo do tempo. Assim, é a parte longa da curva que deve apresentar maior volatilidade nos próximos meses”, conclui.

Outros participantes do mercado também apontam que vetos presidenciais à lei do arcabouço fiscal ampliaram o desconforto. Um dos vetos derrubou a proibição de que a Lei de Diretrizes Orçamentárias previsse a exclusão de despesas primárias da meta de resultado primário dos orçamentos fiscal e da seguridade social.

“Na nossa visão, ainda que a motivação tenha sido acomodar operações com precatórios, o veto enfraquece o arcabouço. Em um cenário de dificuldades para encontrar as receitas extras necessárias para zerar o déficit em 2024, a partir dessa mudança ficará menos obstruído o caminho para que o governo use a brecha para tirar investimentos como os do PAC, por exemplo, da meta”, afirma a equipe da XP Política, em relatório.

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